• OSÓRIO DE BRITO

As diferentes formas de geração distribuída

No momento, a ANEEL só regularizou a troca de energia elétrica entre o consumidor-gerador e a distribuidora em instalações de até 5 MW

O conceito básico de uma geração distribuída baseia-se no fato dessa geração elétrica ocorrer próxima a carga de um ou mais consumidores e, lhes havendo sobra de energia, atender a um agrupamento de consumidores vizinhos. Importa, pois, ressaltar que uma geração distribuída se dimensiona desde 75 kW (micro-geração) e 5 MW (mini-geração), ambas podendo participar do sistema de compensação de energia (net metering), até uma geração termelétrica de maior porte, em acorde com o ainda vigente modelo setorial de 2004. Ressalte-se que essas termelétricas, em uma perspectiva de grandes gerações distribuídas, se situarão, necessariamente, junto ou próximo a um centro de carga.

Vale separar essas últimas unidades, as de maior porte, daquelas outras, produto de interesse exclusivo de seus hospedeiros em busca tanto de economia da sua energia consumida quanto de segurança no seu suprimento; como acima citado, havendo sobra de energia elétrica, tornar-se-á possível participar da rede pública.

Tende, pois, esse conjunto distribuído a formar um parque descentralizado, provocando, em decorrência:

i- a melhora da confiabilidade e da estabilidade do sistema elétrico pois diminui a dependência do parque gerador despachado centralizadamente; não havendo esse despacho, para atender essa geração distribuída, manter-se-ão reservas próximas dos centros de carga; ii- ao descentralizar a geração de energia, a redução da necessidade de investimentos em redes de transmissão, inclusive para interligação regional e para distribuição a fim de coletar a energia produzida; iii- ao permitir o não despacho de hidrelétricas, facilitar o enchimento de seus reservatórios; iv- a redução das perdas elétricas pois possibilita ganhos compartilhados por todos os consumidores e geradores; v- a agilização do atendimento ao crescimento da demanda, com menores prazos para as suas instalações e com uma menor complexidade no licenciamento e na liberação visando a implantação de projetos; vi- para a geração distribuída interligada às redes de distribuição, a melhora da qualidade presente no alimentador ao qual se conecta.

Duas diferentes formas compõem a geração descentralizada: a que emprega a geração fotovoltaica, intermitente, preponderantemente em residências ou instalações prediais, e a resultante de cogeração, seja a gás, seja proveniente de queima de resíduos industriais combustíveis (biomassa, restos de papeleiras, madeireiras ou similares). Convém esclarecer que a intermitência fotovoltaica. supra-referida, exigirá, sempre, um “back up” a fim de evitar os efeitos provocados seja pela constância da presença de nuvens, seja por períodos médios e longos chuvosos ou dotados de nevoa.

Há várias formulações para a ocorrência, na cogeração, da dupla geração, elétrica e térmica; nelas, sempre, haverá um produtor de energia mecânica (motor ou turbina) capaz de alimentar um gerador elétrico e aproveitar o calor resultante para gerar vapor, aquecer água ou resfria-la, além de outros produtos. As suas eficiências atingem valores elevados, acima do requisito legal de 75 % de eficiência energética, para ser considerada como uma “cogeração qualificada”:

i- de 90 a 95% em indústrias de bebidas; ii- de 80 a 90% em outras indústrias e em entidades prestadoras de serviço, como shopping centers, supermercados, hospitais, hotéis, aeroportos e similares;

O crescimento da cogeração vem se realizando significativamente, apesar de, ainda, ocorrerem dificuldades regulatórias. No momento, a ANEEL só regularizou a troca de energia elétrica entre o consumidor-gerador e a distribuidora em instalações de até 5 MW (net metering); acima desse valor, essa troca dependerá exclusivamente do interesse da distribuidora em adquiri-la.

Os dados seguintes evidenciam o crescimento da cogeração:

i- Até 1980 – 2.944 MW de capacidade instalada ii- em 1990 – 3.321 MW; iii- em 2000 – 4.163 MW; iv- em 2010 – 9.268 MW; e v- em 2017 – 18,239 MW.

Tomando o ano de 1980, época ainda praticamente desconhecida, até 2017, ocorreu um crescimento cerca de 6 vezes o uso correspondente; de 2010 a 2017, houve um aumento de cerca de 97,8%, praticamente dobrando essa utilização. Tomando por base a instalação ocorrida em até 2017 (18.239 MW), convém esclarecer que esse crescimento abrangeu diferentes combustíveis sobressaindo-se a biomassa canavieira (61,6 %); seguiram-se gás natural (15,1 %), licor negro (13,9 %), cavaco de madeira (4,6 %), biogás (1,9 %) e outros, como palha de arroz e outros resíduos industriais combustíveis (2,9 %).

Vale sublinhar que parte considerável dos combustíveis utilizados são restos de suas respectivas produções, via de regra estorvos criando problemas para os respectivos descartes.

Urge, pois, gerar as condições necessárias para o livre desenvolvimento da geração distribuída pois nela reside o futuro do Setor Elétrico não só pelos seus respectivos benefícios, mas, também e principalmente, (i) pelas dificuldades físicas impostas às implementações hídricas de grande porte dotadas de reservatórios, (ii) pelas reduções de perdas nos sistemas de transmissão e de distribuição e (iii) para adequar os investimentos em termelétricas e nos sistemas de transmissão.

Osório de Brito é engenheiro e diretor regional Rio de Janeiro da Cogen (Associação da Indústria de Cogeração de Energia)

94 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo